Tenho 300 reais e quero ser escritor. O que fazer?

Tenho 300 reais e quero ser escritor. O que fazer?

 

Então você recebeu uma proposta para participar de uma antologia. É claro, existe um detalhe: você deverá desembolsar algum dinheiro para participar — digamos que R$ 300,00 — e, em troca, você receberá algumas cópias do livro e marcadores. Antes de mais nada, vamos esclarecer um ponto: você quer ser escritor ou somente ter seu nome impresso na capa de um livro? Se escolheu a segunda opção, esse artigo não é para você, desculpe. Pode seguir com a participação na antologia. Saiba, porém, que esse método de publicação costuma — salvo as devidas ressalvas — ser um desserviço à classe dos escritores. Mas se esse não é o caminho que você quer seguir, então eu tenho algumas dicas.

 

Uma longa viagem para uma pequena profissão hostil

Se você pretende enfrentar as dores e delícias da profissão de um escritor (e aqui peço perdão pelo clichê), o meu principal conselho é: estude! Ao contrário do que muitos pensam  —  que escritores se resumem às ótimas ideias de uma musa inspiradora full-time  —  a atividade exige aperfeiçoamento constante, como em qualquer outra profissão. Um bom autor muito lê e muito pratica. Portanto, faça investimentos em workshops de escrita criativa, em cursos de revisão e correção gramatical, em livros de autoridades no assunto, nos serviços de um assessor de imprensa ou de um agente literário.

Gaste seu tempo acompanhando bons podcasts sobre o assunto, indo a encontros e festivais literários, discutindo suas ideias e conceitos com outros autores. E, claro, pesquise sobre o estilo que gostaria de exercitar, descubra quem são seus clássicos, quais autores atualmente desenvolvem o mesmo estilo, e adquira  seus livros.

Não se engane acreditando que, por ter o seu nome impresso na capa de um livro, instantaneamente você se transformará em um ótimo escritor. Pelo contrário, para ser ótimo você precisará ser ruim. Precisará ser péssimo. Deverá reconhecer sua própria incompetência e adquirir as ferramentas que o ajudarão a trilhar esse caminho.

Creia, não existe nenhum caminho que o fará ser o melhor logo de primeira. A competência em qualquer profissão é o resultado de esforço e desenvolvimento diários.  Pergunte a qualquer autor e ele lhe dirá que seu progresso está vinculado tanto ao estudo quanto a uma prática regular de escrita. A Anna Martino, editora da Dame Blanche, resume isso muito bem em sua entrevista para o canal Who’s Geek. 

Trabalhando com as ferramentas à sua disposição

Mas existe alguma maneira de se tornar um autor conhecido mesmo que você não seja publicado por uma editora? A resposte é: sim. A Janayna Bianchi, autora de Lobo de Rua, publicou a primeira versão do livro pelo programa KDP da Amazon. Em seguida, ela mapeou os principais blogs e booktubers cuja linha editorial conversava com o tema d’O Lobo, e entrou em contato com eles para apresentar seu livro. Como resultado, conseguiu uma base muito bacana de leitores. Em 2016, uma versão atualizada do Lobo de Rua foi publicada pela Editora Dame Blanche. O livro já conta com mais de trinta avaliações na Amazon e nota média de 4.0 no Goodreads.

Quer outro exemplo? A escritora Aline Valek, cujo livro As águas vivas não sabem de si (nota média de 3.8 no Goodreads) foi publicado recentemente — também em 2016 — pela Rocco, foi descoberta graças à sua newsletter Bobagens Imperdíveis. Antes disso, ela já publicava como autora independente.

 

Plataformas de Autopublicação

Aproveite as vantagens das plataformas de autopublicação para fazer um teste de mercado, entender seu público-alvo e recolher o feedback dos leitores. Lembre de que a autopublicação exige os mesmos cuidados da publicação tradicional, portanto contrate um preparador ou  revisor de textos antes de disponibilizar seu livro. A capa também é muito importante, e sempre recomendo os serviços de um bom capista. Mas, caso você esteja apertado, a ferramenta Canva oferece boas opções de layout gratuitos para capas.

Abaixo, listo as principais plataformas de autopublicação:

  • KDP: Talvez a plataforma mais popular, a Kindle Direct Publishing é propriedade da Amazon. Com ela, você consegue publicar seus livros sem muita burocracia, deixando-os disponíveis para compra nas diversas lojas da Amazon. Um detalhe importante é que a publicação via KDP disponibiliza os livros para leitura apenas em aparelhos Kindle.
  • Rakuten Kobo: Plataforma de publicação da Kobo. Aqui a Kobo é conhecida por produzir os e-readers vendidos pela Livraria Cultura. É possível criar ebooks para leitura em aparelhos Kobo, além de Android, Apple e Windows. Assim como acontece na KDP, a utilização da ferramenta é bastante intuitiva.
  • Publique-se: Ferramenta de publicação da Livraria Saraiva, ainda em formato beta. A plataforma promete vendas no mundo inteiro, incluindo na loja online da Saraiva e em seu e-reader, o Lev. O processo de publicação também é bastante simples. De acordo com Gustavo Mondo, gerente de produtos digitais da varejista, há predominância de livros técnicos na plataforma.

 

Revistas de Criação Literária

Sim, há revistas focadas em criação literária no Brasil! Com peculiaridades e períodos de submissão próprios, são uma maneira excelente de começar sua produção. Confira os principais nomes no assunto e suas linhas editoriais:

A primeira edição da Revista Mafagafo, lançada em 2018, conta com nomes como Eric Novello e Roberto Causo

  • Revista Trasgo: A Trasgo é uma revista trimestral  de contos de ficção científica e fantasia. Ela aceita materiais que tenham entre 1.000 e 8.000 palavras, com preferência para obras inéditas. Os contos publicados são remunerados.
  • Revista Mafagafo: A Mafagafo também publica materiais de ficção científica e fantasia, com uma peculiaridade: é uma revista seriada, ou seja, as histórias são divididas em quatro partes —  semelhante ao formato dos antigos folhetins. Para contos e noveletas, são aceitos textos que tenham entre 4.000 e 17.500 palavras. Nesse formato, é obrigatório que a equipe possua um autor e um editor. Para flash fiction, os textos deverão ter entre 300 a 1.000 palavras —  sem a obrigatoriedade de um editor. 
  • Revista Bang: Criada pela Editora Saída de Emergência, a Bang é uma revista portuguesa bianual que recebe materiais de fantasia, ficção científica, horror, história alternativa, romance paranormal, entre outros. Além da versão digital, também é publicada uma versão impressa, distribuída gratuitamente nas lojas da FNAC.

 

 

 

 

E sobre aqueles 300 reais…

Pois bem, aquele dinheiro que você tinha aí guardadinho para aquela antologia paga meio obscura pode ser melhor empregado. Seguem algumas dicas:

Livros! Livros por toda parte!

  • A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler, em que você aprenderá a utilizar o recurso da “Jornada do Herói” em favor da sua obra — e mesmo que não queira usá-la, é importante conhecer a metodologia para desconstruí-la ;
  • O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, que pode ser considerado o pai da “Jornada do Herói” e fala, neste livro, sobre a construção do mito do herói em diversos momentos da sociedade;
  • Sobre a Escrita, de Stephen King, em que o autor fala sobre o seu próprio processo criativo e dá dicas — tanto de estilo quanto gramaticais  —  que são excelentes;
  • A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, de Kátia Regina Souza, que se propõe a abordar as principais questões sobre o mercado editorial brasileiro, desde as armadilhas a que o autor iniciante está sujeito à dicas de como encarar feedbacks e melhorar seu processo criativo;
  • Romancista Como Vocação, de Haruki Murakami, que é ao mesmo tempo uma autobiografia e um manual de escrita para autores iniciantes — bem semelhante ao Sobre a Escrita. Nele, Murakami conta sobre a experiência que o fez se tornar escritor, seus métodos e onde buscar inspiração;
  • Wonderbook, de Jeff Vandermeer, um manual parrudo e ilustrado sobre escrita, técnicas e criatividade. Existem diversas atividades no livro, e esse é um dos melhores livros técnicos mais completos para autores, cuja leitura é recomendadíssima.
  • Write. Publish. Repeat., de Sean Platt, que eu ainda não li, mas foi recomendação do autor Thiago D’Evecque  —  em cuja opinião confio bastante. Ele funciona como uma guia de referência para escritores independentes e trata principalmente de processos como marketing e divulgação para obras independentes.

Wonderbook, de Jeff VanderMeer, foi publicado em 2013 e indicado ao Prêmio Hugo por Melhor Trabalho Relacionado

Cursos de Escrita Criativa

  • Oficina de Redação Literária, do Rodrigo van Kampen,  que é o editor da Revista Trasgo. Eu participei da primeira turma do curso e posso garantir que o material do Rodrigo é excelente e bastante didático;
  • A Oficina de Criação Literária, do Marcelo Spalding, responsável pela Editora Metamorfose. A oficina é disponibilizada online, e o material é completíssimo — fiz e recomendo bastante. O Marcelo sugere exercícios e acompanha o desempenho dos alunos, enviando feedbacks para todas as atividades. Você terá acesso ao material por 4 meses;
  • A Oficina de Escrita, também do Marcelo Spalding, tem foco em técnicas de retórica, jornalismo e publicidade para a produção de textos mais criativos e eficientes. O material fica disponível por 3 meses. Não cheguei a fazer essa oficina, mas recomendo por saber do profissionalismo do Marcelo;
  • TOCA: Oficina de Criação Literária, está acima dos nossos suados R$ 300,00, mas vale cada centavo investido. Ela é ministrada pelo autor Marcelino Freire, que é gente boníssima, tem alguns Jabutis no bolso e muita disposição para ensinar. Ele também abre vagas para alunos bolsistas: inclusive foi dessa forma que consegui participar de uma das turmas;
  • O curso CONTE, do autor Fábio Barreto, também custa mais que R$ 300,00. Porém, acompanhei o depoimento de amigos próximos que atestam a qualidade do material oferecido pelo Barreto. São 16 semanas de acompanhamento, atividades e reuniões individuais, então acho que vale bastante a pena para quem quer e pode desembolsar um pouquinho mais para o aperfeiçoamento profissional.

 

Revistas Especializadas

As revistas especializadas trazem novidades sobre o mercado editoral, crônicas e indicações de leitura. Possuem um conteúdo mais parrudo, e são importantíssimas para quem quer entender o cenário literário atual.

  • Suplemento Pernambuco, talvez a revista mais importante sobre o tema no país. A venda avulsa é feita em bancas e livrarias do Recife, e em livrarias no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Também é possível fazer um assinatura anual ou bianual;
  • Quatro Cinco Um, que estreou em 2017 como uma revista mensal de crítica de livros. Possui ênfase em não-ficção, trazendo material sobre economia, política, ciências e cultura, porém também cobre artigos sobre ficção. Está disponível em bancas e livrarias por todo Brasil. Você também pode fazer uma assinatura — a revista dispõe de vários planos;
  • Revista Serrote, de publicação quadrimestral, oferece desde 2009 ensaios sobre literatura, artes visuais e cultura.  É vinculada ao Instituto Moreira Salles, e pode ser comprada pelo site do IMS. Além disso, possui vários planos de assinatura.

 

E opções gratuitas, elas existem?

Claro que existem! Felizmente há muito material de qualidade sendo produzido sobre o tema. Eu fiz um apanhado dos principais canais de conteúdo que você pode consultar para melhorar suas habilidade como autor.

Podcasts

  • CabulosoCast, um podcast que vale por pequenas aulas de literatura. Todos os episódios são capitaneados por pessoas incríveis, que sabem do que estão falando. Ele foi descontinuado, mas existem 208 episódios disponíveis, além dos episódios especiais;
  • Perdidos na Estante, um spin-off do CabulosoCast. Hosteado pela Domenica Mendes, o Perdidos segue os passos de seu podcast-pai, oferecendo episódios que falam sobre livros, quadrinhos e cultura pop, todos com uma linguagem bastante acessível;
  • Os Doze Trabalhos do Escritor, uma iniciativa de A.J. OliveiraEm cada episódio, escritores convidados debatem temas como ideação, normas gramaticais, estilos literários e o próprio momento da publicação;
  • O podcast Curta Ficção, que surgiu da parceria entre os autores Jana Bianchi, Thiago Lee e Rodrigo Mesquita. Os episódios, que têm 30 minutos no máximo, abordam os principais pontos a se considerar durante a construção de uma história, além de conversar sobre temas como agenciamento literário e mercado editorial;
  • O podcast Sobrescrever, outro spin-off do Leitor Cabuloso, cujo foco está na construção e análise de histórias.

 

Newsletters

  • Viver da Escrita, newsletter do autor e editor Rodrigo van Kampenm, enviada quinzenalmente. Ela traz dicas de escrita, além de conteúdos livros, produtividade e criação literária;
  • Anna Dixit, newsletter da autora e editora Anna Martino, enviada semanalmente. Anna tem sempre conselhos práticos para quem quer escrever, e compartilha conosco suas felicidades e dores — nos lembrando que mesmo os nossos autores favoritos ficam perdidos e erram as vírgulas;
  • Alliahverso, newsletter do autor Alliah/Vic. Além de autor, Alliah é artista visual e entende bastante sobre Weird Fiction;
  • Leitor Cabuloso, newsletter do site Leitor Cabuloso, falando sobre ficção, cultura pop, além de possuir conteúdo exclusivo.

Você também pode se inscrever na minha newsletter, a Cortesia da Casa. Nela, eu falo sobre o mercado editorial, processos criativos, dúvidas sobre revisão e preparação de textos, além de dar dicas de marketing para autores.

Revistas

  • A Revista Fantástika 451 pretende divulgar análises, resenhas e críticas relacionadas às Narrativas Fantástikas, como a Ficção Científica, Fantasia, Horror, Weird e demais relacionadas, tanto em literatura quanto em cinema e outras mídias. As edições são unicamente virtuais.
  • A Revista Pólen é uma revista literária online que se pretende dinâmica e inclusiva que contempla diferentes gêneros e estilos. Além de análises literárias, ela também aceita contos, crônicas e poemas.

No infográfico abaixo eu compilei em cinco passos o caminho para ser um escritor de sucesso. Mas vai um resumo: disciplina e dedicação. Boa sorte!

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